Você quer Apagar seu Passado Amoroso?


Me pego vendo uma foto sua… Uma de uma época que nossos caminhos ainda não haviam se cruzado.

O rosto alegre, leve, petulante.

Os olhos castanhos nos quais sempre pensei, às vezes absurdamente comovido, ao ouvir uma linda música que fala exatamente de olhos castanhos…

Teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos, são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são raios de luz.

(Fafá de Belém – “Olhos Castanhos”)

 

E leio as palavras ingenuinamente sublimes de um dos poucos bilhetes que às vezes eu encontrava em meu apartamento, escritos por você. Era uma espécie de despedida de um cara que tinha surgido e passado: eu.

Não eram bilhetes longos, essa é a verdade. Mas você, em compensação, foi a mulher mais bonita que a humanidade já viu.

Se não me engano, escrevi isso um dia para a você.

E então, no meio desta viagem nostálgica, me ocorre o filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. O nome do filme é uma citação de um poeta, Alexander Pope do século XVIII.

 

 

Sou um cara que gosta de citações, de Freud, meu companheiro nas horas vagas, a Nelson Rodrigues, o maior frasista que o Brasil produziu.

O amor, primeiro, traz encanto; depois, traz angústia. Quanto maior o encanto, maior a angústia. É uma espécie de preço das coisas legais das quais desfrutamos.

Na hora do tormento, é grande a tentação de arrancar da mente as lembranças de quem nos levou aos cumes do prazer e, depois, ao abismo miserável do sofrimento.

Queremos só a primeira parte, não a segunda, e não aceitamos que é impossível ter uma sem ter a outra.

Remover as memórias afetivas de alguém por quem sofremos é a redenção, como mostra o filme, no qual uma clínica faz sucesso exatamente com isso: homens e mulheres sofridamente apaixonados e decepcionados libertam-se de suas dores ao extirpar as lembranças.

 

 

O bonito, no filme, é o dilema no qual os protagistas se vêem. Você quer mesmo apagar o passado? Tem certeza?

O tormento vai ser obliterado, mas com ele todos aqueles momentos nos quais parecia que a felicidade estava ao alcance das mãos.

O primeiro encontro, o primeiro beijo. A primeira vez, como escreveu Hemingway, em que a terra tremeu a seus pés. (Segundo Hemingway, a terra treme apenas três vezes na Vida das pessoas, não mais que isso.)

E então, é para apagar tudo mesmo?

Penso em mim, penso em você, contemplo sua foto que agora mesmo repousa em minhas mãos e digo que não.

Você fez a terra tremer pela primeira vez pra mim. A separação me atirou a um estado de melancolia que, de certa forma, me acompanhou desde então.

Você involuntariamente moldou minha personalidade meio depressiva e não a culpo. Eu, que tinha sido um cara alegre, um cara de piadas instantâneas…

Mas não. Não quero ir à clínica do filme. Aceito – mais que isso, venero! – o preço avassalador que paguei pelo privilégio de tê-la.

Antes de guardar a foto, me pergunto o que se deu com você. Gostaria tanto que você tivesse sido poupada de todas as tristezas da Vida, mas isso quase nunca acontece.

Infantilmente, tento reviver cada momento que passamos juntos. Não quero que a imagem daquela linda mulher de olhos castanhos se arranhe jamais.

E, mais que tudo, não quero o brilho de uma mente sem lembranças.

 

 

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* adaptado do texto de Fábio Hernandez publicado originalmente na revista VIP em março de 2005

 

 

 

 


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