[Arte da Sedução] Tipo 5 – Natural


A infância é um paraíso dourado que estamos sempre, consciente ou inconscientemente, tentando recriar.

O Natural incorpora as qualidades tão desejadas da infância – espontaneidade, sinceridade, despretensão. Na  presença da pessoa Natural, nos sentimos à vontade, capturados pelo seu espírito brincalhão, transportados de volta àquela era de ouro.

Os Naturais também fazem de suas fraquezas uma virtude, despertando a nossa solidariedade com seus sofrimentos, fazendo com que queiramos protegê-los e ajudá-los. Como no caso da criança, grande parte disso é natural, mas o resto é exagero, uma manobra sedutora consciente.

Adote a atitude do Natural para neutralizar a resistência defensiva das pessoas e infectá-las com uma irresistível sensação de prazer.

 

O símbolo para o tipo sedutor Natural é o Cordeiro. Tão macio e afetuoso. Sua fraqueza faz parte de seu encanto. É pura inocência, tão inocente que desejamos possuí-lo, até mesmo devorá-lo.

 

TRAÇOS PSICOLÓGICOS DA PESSOA NATURAL

 

As crianças não são tão ingênuas quanto imaginamos. Elas sofrem com sentimentos de impotência, e percebem desde muito cedo o poder de seu encanto natural para compensar suas fraquezas no mundo dos adultos.

Elas aprendem a jogar: se a sua natural inocência pode convencer os pais a ceder aos seus desejos numa ocasião, podem usá-la como estratégia em outra, desferindo o golpe no momento certo para conseguirem o que querem.

Se a sua vulnerabilidade e fraqueza são tão atraentes, então podem ser usadas para produzir o efeito desejado. Simples assim.

Por que somos seduzidos pela espontaneidade das crianças? Primeiro, porque tudo que é natural e espontâneo exerce sobre nós um estranho efeito.

Desde o início dos tempos, fenômenos da natureza – como tempestades de raios e eclipses – têm inspirado nos seres humanos um misto de admiração e medo. Quanto mais civilizados nos tornamos, maior o efeito que estes acontecimentos naturais têm sobre nós: o mundo moderno nos cerca de tantas coisas manufaturadas e artificiais, que algo súbito e inexplicável sempre nos fascina.

As crianças também têm este poder natural, mas, como não representam ameaça e são humanas, não nos causam tanto espanto quanto nos encantam.

A maioria das pessoas tenta agradar, mas a criança é agradável sem se esforçar para isso, e esta característica desafia a explicação lógica – e o que é irracional costuma ser perigosamente sedutor.

 

 

E o que é mais importante: a criança representa um mundo do qual fomos exilados para sempre!

Como a Vida adulta é cheia de tédio e concessões, temos de alimentar a ilusão da infância como uma espécie de era dourada, mesmo que na maioria das vezes seja um período de muita confusão e dor.

Impossível negar, entretanto, que a infância teve certos privilégios, e quando crianças tínhamos uma atitude agradável com relação à Vida.

Diante de uma criança particularmente encantadora, nos sentimos melancólicos: nos lembramos de nosso próprio passado dourado, as características que perdemos e gostaríamos de voltar a ter. E, na presença da criança, recuperamos um pouco dessa qualidade áurea.

 

 

Sedutores Naturais são pessoas que de algum modo evitaram que a experiência da Vida adulta lhes tirasse certos traços infantis. Essas pessoas podem ser tão sedutoras quanto uma criança, porque terem preservado essas caraterísticas parece uma coisa fantástica e maravilhosa.

Elas não são literalmente crianças, é claro; se assim fossem elas seriam irritantes e dignas de pena. É mais o “espírito de criança” que elas conservaram.

E não pense que esta infantilidade é algo sobre o qual elas não tem controle. Muitíssimo pelo contrário: Sedutores Naturais aprendem desde cedo o valor de conservar uma determinada característica, e o poder sedutor que ela significa; eles adaptam e aumentam esses traços infantis que conseguiram preservar, exatamente como a criança aprende a jogar com seu encanto natural. Esta é a chave.

 

Um homem pode encontrar uma mulher e ficar chocado com sua feiura. Em breve, se ela for simples e natural, sua expressão o fará perdoar o erro de seus traços físicos. Ele começa a achá-la encantadora, e pensar que ela poderia ser amada, uma semana se passa e ele está cheio de esperanças. Mais uma semana, ele cai em desespero, mais outra semana e ele está enlouquecido por ela.

(Stendhal – “Sobre o Amor”)

 

Está em seu poder fazer o mesmo, porque existe escondida dentro de todos nós uma criança diabólica lutando para se libertar.

Para fazer isso bem, você precisa ser capaz de se soltar um pouco, porque não há nada menos natural e anti-sedutor do que parecer hesitante.

Lembre-se do espírito que teve um dia; permita que ele retorne, sem inibições. As pessoas estão muito mais dispostas a perdoar quem vai até o fim, quem parece incontrolavelmente tolo, do que o adulto sem entusiasmo com um traço infantil.

Lembre-se de como você era antes de se tornar uma pessoa tão educada e discreta. Para assumir o papel do Natural, coloque-se mentalmente em qualquer relacionamento como se fosse a criança, a pessoa mais jovem.

 

 

Os tipos a seguir são os principais adultos naturais. Tenha em mente que os melhores sedutores naturais são quase sempre uma mistura de algumas dessas caraterísticas.

 

Inocente

O adulto Natural não é realmente inocente – é impossível crescer neste mundo e manter uma total inocência.

No entanto, os Naturais desejam tanto manter a sua própria visão inocente que conseguem preservar a ilusão de inocência. Eles exageram as suas fraquezas para inspirar a solidariedade adequada. Agem como se ainda vissem o mundo através de olhos inocentes, o que num adulto é duplamente engraçado.

Em grande parte, isto é consciente, mas, para funcionar, os adultos naturais devem fazer com que pareça sutil e fácil – se forem apanhados tentando fingir inocência, serão vistos como pessoas patéticas.

É melhor para eles passar a ideia de fraqueza indiretamente, com expressões e olhares, ou por meio de situações sem que eles mesmos se metem, em vez de algo óbvio. Como este tipo de inocência é na maioria das vezes uma representação, é fácil adaptá-lo aos seus propósitos.

Aprenda a ressaltar fraquezas ou falhas que sejam naturais.

 

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O Endiabrado

Crianças endiabradas possuem uma coragem que nós, adultos, já perdemos.

Isso porque não veem as possíveis consequências de seus atos – que podem magoar certas pessoas, que elas mesmas podem se machucar fisicamente. Os endiabrados são ousados, alegres e descuidados.

Eles contagiam as pessoas com seu humor leve. Essas crianças ainda não tiveram a energia e humor naturais expulsos de dentro delas pela necessidade de serem polidas e civilizadas.

No íntimo, nós as invejamos; também queremos fazer travessuras.

Adultos endiabrados são sedutores porque são diferentes da maioria.

Sopros de ar puro num mundo cauteloso, eles seguem a pleno vapor como se as suas diabruras fossem incontroláveis e, portanto, naturais. Se você faz esse papel, não se preocupe em ofender as pessoas de vez em quando – você é adorável demais e, inevitavelmente, será perdoado.

Só não se desculpe ou pareça arrependido, pois isso quebra o encanto. Não importa o que você fala ou diga, mantenha aquele brilho no olhar que mostra que você não leva nada a sério.

 

O Prodígio

A criança prodígio tem um talento especial inexplicável: um dom para a música, para a matemática, para o xadrez, para o esporte.

Em atividade no campo em que possuem essa habilidade prodigiosa, essas crianças parecem possuídas, e suas ações são executadas sem nenhum esforço. Se são artistas ou músicos, tipos como Mozart, suas obras parecem brotar de um impulso inato, com uma facilidade extraordinária que não requer muito trabalho mental.

Se é um talento físico, elas são abençoadas com uma excepcional energia, destreza e espontaneidade. Em ambos os
casos, parecem ter um talento acima da sua idade. Isso nos fascina.

Adultos prodígios costumam ser aquelas crianças prodígios que conseguiram, de uma forma notável, conservar a impulsividade e a capacidade de improvisação da juventude.

Para representar o prodígio, você precisa ter uma habilidade que pareça fácil e natural, além de saber improvisar. Se de fato a sua habilidade exige uma certa prática, você precisa esconder isto e aprender a fazer com que o seu trabalho pareça fácil.

Quanto mais você oculta o suor que existe por trás do que você faz, mais natural e sedutor isso vai parecer.

 

 

O Amante Desprotegido

Com a idade, as pessoas começam a se proteger de experiências dolorosas, fechando-se em si mesmas. O preço disso é que elas ficam rígidas, física e mentalmente.

Mas as crianças são por natureza desprotegidas e abertas a experiências, e essa receptibilidade é extremamente atraente. Na presença de crianças, ficamos menos rígidos, contagiados pela franqueza delas. É por isso que queremos ficar perto delas.

Amantes desprotegidos contornaram de certa forma o processo autodefensivo, mantendo o espírito alegre, receptivo da criança. O amante indefeso reduz as inibições do seu alvo, uma parte crítica da sedução.

Esteja aberto à influência dos outros, e eles cairão no seu feitiço mais facilmente.

 

Cena do filme “Amor e Inocência”

 

 

EXEMPLOS DE SEDUTORES NATURAIS

 

1 – Riso e Puro Sentimento: Charles Chaplin

 

Charles Chaplin viveu anos de extrema pobreza durante a infância na Inglaterra, principalmente depois que a sua mãe foi internada num hospício.

Ainda adolescente, obrigado a trabalhar para viver, arrumou emprego no vaudeville (um gênero de entretenimento de variedades predominante do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930), acabando por conquistar algum sucesso como comediante.

Mas Chaplin era extremamente ambicioso, e assim, em 1910, com apenas 19 anos, ele emigrou para os Estados Unidos esperando ingressar na indústria cinematográfica.

Progredindo em Hollywood, ele conseguia pequenos papéis ocasionais, mas o sucesso parecia difícil de alcançar: a competição era intensa, e embora Chaplin tivesse um repertório de cacos (na linguagem do teatro “improvisos”) que aprendera no vaudeville, ele não se destacava particularmente no humor físico, uma parte crítica da comédia muda.

 

Em 1914, Chaplin conseguiu o papel principal num curta metragem chamado Making a Living. Seu papel era de um trapaceiro.

Divertindo-se com o seu traje para o personagem, ele vestiu um par de calças vários tamanhos maior do que o seu, acrescentou um chapéu coco, botas enormes calçadas com os pés trocados, uma bengala e um bigode postiço.

Com as roupas, um novo personagem parecia adquirir Vida – primeiro o andar de bobo, depois o girar da bengala, em seguida cacos de todos os tipos.

Uma resenha publicada numa revista especializada dizia: “O esperto ator que fez o papel de um nervoso e muito elegante vigarista neste filme é um comediante de primeira linha, que representa como alguém que nasceu para isso.”

E as plateias também reagiram: o filme deu muito lucro.

 

À esquerda, Charles Chaplin no filme “Making a Living”.

 

O que pareceu tocar um nervo em Making a Living, distinguindo Chaplin de uma horda de outros comediantes do cinema mudo, era a ingenuidade quase patética de seu personagem.

Percebendo que a fórmula havia dado certo e que estava agradando, Chaplin aperfeiçoou ainda mais o personagem nos filmes seguintes, tornando-o cada vez mais ingênuo. A chave era fazer o personagem ver o mundo pelos olhos de uma criança.

Em The Bank, ele é o vigia de um banco que sonha acordado enquanto ladrões assaltam o prédio; em The Pawnbroker, ele é um auxiliar de oficina despreparado que destrói um relógio de pêndulo; em Ombro Armas!, é um soldado nas trincheiras sangrentas da Primeira Guerra Mundial, reagindo aos horrores da guerra como uma criança inocente.

E, mergulhando cada vez mais em seus papéis,  algo estranho aconteceu: o personagem e o homem na Vida real começaram a se fundir.

Embora sua infância tivesse sido difícil, ele era obcecado por ela.

Chaplin desconfiava do mundo adulto, preferindo a companhia de jovens, ou dos jovens de coração: três das suas quatro esposas eram adolescentes quando se casou com elas.

Mais do que qualquer outro comediante, Chaplin provocava um misto de riso e sentimento. Ele despertava a sua empatia como vítima, fazia com que você sentisse pena dele como sentiria por um cachorro perdido.

Vocês dois sorriam e choravam.

E as plateias percebiam que o papel que Chaplin representava vinha de algum lugar bem lá no fundo – que ele era sincero, que realmente estava representando a si mesmo. Que tudo ali era 100% Natural.

 

Charles Chaplin interpretando seu personagem mais famoso: Carlitos, o vagabundo.

 

Os maiores sedutores do mundo, aqueles que seduzem plateias em massa, nações, o mundo inteiro, têm um jeito de tocar o inconsciente das pessoas, fazendo-as reagir de uma forma que não conseguem compreender ou controlar.

Chaplin, sem querer, percebeu esse seu poder ao ver o efeito que poderia causar nas plateias tocando em seus pontos fracos, sugerindo que ele tinha uma mente infantil num corpo adulto.

Uma criança adulta como Chaplin tem um imenso poder sedutor, pois ela oferece a ilusão de que a Vida foi um dia simples e fácil, e que por um momento, ou enquanto durasse o filme, você poderia conquistar essa Vida de volta.

Num mundo cruel, amoral, a ingenuidade exerce uma atração enorme. A chave é resgatá-la com um ar de total seriedade, como o homem que não ri faz numa stand-up comedy. O mais importante, entretanto, é a criação de solidariedade.

 

A força e o poder declarado raramente é sedutor – nos assusta, ou causa inveja. O caminho real para a sedução é chamar a atenção para a sua vulnerabilidade e impotência.

Você não pode ser óbvio nisso; parecer que está implorando por solidariedade é dar a impressão de ser carente, o que é totalmente anti-sedutor.

Não se autoproclame uma vítima ou um pobre-diabo, mas revele isso nos seus modos, na sua confusão.

Uma demonstração de fraqueza “natural” fará você adorável no mesmo instante, ao mesmo tempo baixando as defesas das pessoas e fazendo-as se sentir deliciosamente superiores a você.

Coloque-se em situações que o farão parecer fraco, em que os outros é que estão em posição vantajosa; eles são os valentões, você é o cordeirinho inocente. Sem nenhum esforço da sua parte, eles se sentirão solidários a você.

Quando o sentimentalismo cega o olhar as pessoas, elas não vêem que você as está manipulando.

 

2 – Cora Pearl  e a Desobrigação de Tentar Agradar

 

Emma Crouch, nascida em 1842, em Plymouth, na Inglaterra, vinha de uma família respeitável de classe média.

O pai era um compositor e professor de música que sonhava com o sucesso no mundo da opereta ligeira. Entre seus muitos filhos, Emma era a preferida; ela era uma criança encantadora, cheia de Vida e coquete, de cabelos ruivos e rosto sardento.

O pai a adorava e lhe prometeu um futuro brilhante no teatro.

Infelizmente o senhor Crouch tinha um lado negativo: era um aventureiro, um jogador e libertino, e em 1849 abandonou a família e foi para a América.

Os Crouch ficaram em grandes dificuldades. Disseram a Emma que o pai morrera num acidente e a mandaram para um convento.

A perda do pai a afetou profundamente, e com o passar dos anos ela parecia perdida no passado, agindo como se o pai ainda a adorasse.

 

 

Um dia, em 1856, quando Emma voltava a pé da igreja, um senhor bem vestido a convidou para ir até a casa dele comer doces. Ela foi e ele abusou dela.

Na manhã seguinte, esse homem, mercador de diamantes, prometeu que a instalaria numa casa própria, que a trataria bem e lhe daria muito dinheiro.

Ela pegou o dinheiro, mas largou o homem, determinada  a fazer o que sempre havia planejado: nunca mais ver a família, não depender mais de ninguém e levar a Vida de fausto que o pai lhe prometera.

Com o dinheiro que o mercador de diamantes lhe dera, Emma comprou roupas bonitas e alugou um apartamento simples. Adotando o nome de vistoso de Cora Pearl, ela começou a frequentar o Argyll Rooms de Londres, um palácio sofisticado e elegante onde prostitutas e cavalheiros se acotovelavam.

O proprietário do Argyll, um tal Mr. Bignell, prestou atenção naquela nova frequentadora do seu estabelecimento – era muito ousada para uma jovem.

Com 45 anos, ele era muito mais velho que ela, mas resolveu que seria seu amante e protetor, cobrindo-a de dinheiro e atenções. No ano seguinte, ele a levou a Paris, que estava no auge da prosperidade no Segundo Império.

 

 

Cora ficou fascinada com Paris, e com tudo o que viu, mas o que mais a impressionou foi o desfile de ricos coches pelo Bois de Boulogne.

Ali os elegantes iam tomar ar – a imperatriz, as princesas e, não menos importante, as grandes cortesãs que tinham as carruagens mais luxuosas de todas.

Este era o jeito de levar o tipo de Vida que o pai de Cora tinha desejado para ela. Ela comunicou  a Bignell que continuaria em Paris, sozinha, quando ele voltasse para Londres.

Frequentando todos os lugares certos, Cora logo chamou a atenção de cavalheiros franceses ricos. Eles a viam caminhando pelas ruas vestida de cor de rosa, para combinar com a cabeleira ruiva chamejante, o rosto pálido e as sardas.

Eles a vislumbravam cavalgando velozmente pelo Bois de Boulogne, estalando o chicote à direita e à esquerda. Eles a viam nos cafés rodeada de homens, fazendo-os rir com seus insultos espirituosos.

Também escutavam falar de suas proezas – do seu prazer em mostrar o corpo para todos. A elite da sociedade parisiense começou a cortejá-la, particularmente os homens mais velhos já cansados das frias e calculistas cortesãs, e que admiravam o seu humor de menina.

Conforme o dinheiro jorrava de suas diversas conquistas, Cora gastava nas coisas mais escandalosas – uma carruagem multicolorida puxada por uma parelha de cavalos de cor creme, uma banheira de mármore rosa com suas iniciais gravadas em ouro.

Os homens competiam para ser aquele que a mimava mais. Mas o dinheiro não podia comprar a felicidade de Cora; ao mais leve capricho ela abandonava um homem.

 

 

O comportamento desregrado de Cora e o seu desprezo pela etiqueta deixava Paris ouriçada. Em 1864, ela ia aparecer como Cupido na opereta de Offenbach, Orfeu no Inferno.

A sociedade estava ansiosa para ver o que ela faria para causar sensação, e logo descobriu: ela entrou no palco praticamente nua, exceto pelos diamantes caros salpicados aqui e ali, que mal a cobriam.

Enquanto ela saltitava pelo palco, os diamantes caíam, cada um valendo uma fortuna; ela não parava de apanhá-los, mas deixava que eles rolassem pela ribalta.

Os homens da plateia, alguns dos quais lhe haviam dado aqueles diamantes, a aplaudiam enlouquecidos.

Extravagâncias como essa fizeram de Cora a figura mais disputada de Paris, e ela reinou como a suprema cortesã da cidade por mais de uma década.

 

 

As pessoas se enganam achando que é a beleza física, a elegância ou a sexualidade explícita que torna alguém profundamente desejável. Talvez, em parte, porque este seja o ponto que fraco que leva praticamente todas as pessoas a consumir uma gama muito ampla de produtos que oferecem a ilusão de alcançar, ao fim, este estado de “ser desejável”.

No entanto Cora Pearl não era exageradamente bela; tinha um físico de menino e seu estilo era espalhafatoso e de mau gosto. Mesmo assim, os homens mais sofisticados da Europa disputavam os seus favores, chegando muitas vezes à ruína neste processo.

Era o espírito e a atitude de Cora que os fascinavam. Mimada pelo pai, ela imaginava que mimá-la era uma coisa natural – que todos os homens deveriam fazer o mesmo.

Por conseguinte, como acontece com a criança, ela nunca se sentia na obrigação de tentar agradar. Era o intenso ar de independência de Cora que fazia os homens quererem possuí-la, domá-la.

Ela jamais fingiu ser mais do que uma cortesã. Portanto, a ousadia que numa dama teria sido falta de educação, nela parecia espontânea e divertida.

E, como no caso da criança mimada, ela era quem ditava os termos do seu relacionamento com um homem.

No momento em que ele procurasse inverter isso, ela se desinteressava. Este era o segredo de seu surpreendente sucesso.

 

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A má fama das crianças mimadas é injusta: embora aquelas que são estragadas com coisas materiais costumem ser mesmo insuportáveis, a pessoa mimada pelo afeto se sabe profundamente sedutora. Esta se torna uma vantagem distinta quando ela cresce.

Segundo Freud (que falava por experiência própria, visto que foi o queridinho da mamãe), crianças mimadas têm uma confiança que as acompanha pro resto de suas Vidas.

Esta característica irradia para fora, atraindo as outras pessoas e, num processo circular, fazendo com que elas as mimem ainda mais.

Como o seu espírito e a sua energia naturais nunca foram domados por um pai ou mãe disciplinadores, quando adultas elas são aventureiras e corajosas, e muitas vezes endiabradas e imprudentes.

A lição é simples: pode ser tarde demais para ser mimado por um pai ou mãe, mas nunca é tarde demais para fazer com que os outros mimem você. Tudo depende de sua atitude.

As pessoas se sentem atraídas por quem espera muito da Vida, enquanto tendem a desrespeitar quem é medroso e acomodado.

A independência indomável tem um efeito provocante sobre nós: ela nos atrai, embora também represente um desafio – queremos ser aquele que a domesticará, fazer a pessoa cheia de vigor depender de nós.

Na sedução, apenas despertar esses desejos competitivos já é meio caminho andado.

 

Aparentemente, ter humor implica ter vários sistemas de hábitos típicos. O primeiro é emocional: o hábito da brincadeira. Por que alguém deveria orgulhar-se de ser brincalhão? Por dois motivos. Primeiro, a brincadeira conota infância e juventude. Se alguém é capaz de brincar, é porque ainda possui um pouco de vigor e da alegria dos jovens. Mas existe uma implicação ainda mais profunda. Ser brincalhão, em certo sentido, é ser livre. Quando alguém brinca, está por alguns instantes desconsiderando as suas obrigações com os negócios e os códigos morais, com a Vida doméstica e a comunidade.

O que nos deixa exasperados é que as obrigações não nos permitem moldar o mundo como gostaríamos. O que mais desejamos, entretanto, é criar o nosso mundo para nós mesmos. Sempre que podemos fazer isso, o mínimo que seja, ficamos felizes. Agora, brincando, criamos o nosso próprio mundo.

(Professor H. A. Overstreet – “Influencing Human Behavior”)

 

3 – Josephine Baker e a “Danse Sauvage”

 

Em outubro de 1925, a sociedade parisiense estava excitadíssima com a estréia da Revue Nègre.

O jazz, ou de fato qualquer coisa que viesse da África negra, era a última moda, e os dançarinos e atores da Broadway que compunham a Revue Nègre eram afro-americanos.

Na noite da estréia, artistas e a alta sociedade apinhavam-se no saguão. O show foi espetacular, como eles esperavam, mas nada os havia preparado para o último número, executado por uma mulher pernalta e um tanto desajeitada com um rosto lindíssimo: Josephine Baker, a corista de vinte anos, do leste de St. Louis.

Ela entrou no palco com os seios nus, vestida com uma saia de penas sobre um biquíni de cetim, com penas ao redor do pescoço e dos tornozelos.

 

Josephine Baker em um seus números

 

Embora ela fizesse seu número, chamado “Danse Sauvage”, com outra dançarina, também vestida de penas, todos os olhares grudaram-se nela: o seu corpo inteiro parecia tomado de uma energia nunca antes vista, as pernas movendo-se com a flexibilidade de um gato e seu bumbum girando em desenhos que um crítico comparou com o bater de asas de um beija-flor.

Ela irradiava uma alegria que tornava a sua dança erótica de uma inocência peculiar, até um pouco engraçada.

No dia seguinte, espalhou-se a notícia: uma estrela havia surgido. Josephine Baker era agora o centro da Revue Nègre, e Paris estava aos seus pés.

Em apenas um ano, seu rosto estava nos cartazes por toda parte; havia perfumes, bonecas e roupas Josephine Baker; as francesas elegantes estavam alisando os cabelos para trás à la Baker, com um produto chamado Bakerfix… estavam até tentando escurecer a pele…

Essa fama repentina representou uma grande mudança, porque poucos anos atrás Josephine ainda era uma jovem que morava no leste de St. Louis, um dos lugares mais miseráveis da América.

Ela começou a trabalhar aos oito anos de idade, fazendo faxina em casas para uma mulher branca que batia nela e muitas vezes fazia Josephine dormir em porões infestados de ratos; nunca havia aquecimento no inverno.

(Ela aprendeu a dançar sozinha no seu estilo selvagem para se manter aquecida.)

Agora, em Paris e apesar de seu sucesso com a Revue Nègre, Josephine não se iludia: os parisienses eram volúveis. Ela decidiu inverter o relacionamento.

Primeiro, recusou-se a alinhar com qualquer clube, e criou a fama de quebrar contratos à vontade, deixando claro que estava pronta para sair  de um momento para outro.

Desde a infância ela temia depender de quem quer que fosse; agora admitiria isso. Essa postura. Isto só fez com que os empresários a perseguissem ainda mais e o seu sucesso com o público fosse ainda maior.

Segundo, ela sabia muito bem que, apesar de a cultura negra estar na moda, os franceses tinham se apaixonado era por uma espécie de caricatura.

Se esse era o preço do sucesso, então que fosse, mas Josephine deixou  claro que não levava a caricatura a sério.Pelo contrário, ela a inverteu, tornando-se a última palavra em matéria de francesa elegante, uma caricatura não de negrura, mas de brancura.

Tudo era um papel a representar – a comediante, a dançarina primitiva, a parisiense elegantíssima. E tudo que Josephine fazia era com um espírito muito leve, com tamanha despretensão, que ela continuou seduzindo os entediados franceses durante anos.

 

 

Desde o início, Josephine Baker não suportava a sensação de não ter controle sobre o mundo. Mas o que podia fazer diante da sua situação tão pouco promissora?

Havia moças que depositavam todas as esperanças num marido, mas o pai de Josephine tinha abandonado a mãe logo depois que ela nasceu, e ela via o casamento como algo que só a faria ainda mais miserável.

A solução que encontrou foi o que as crianças fazem com frequência: tendo de enfrentar um ambiente inóspito, ela se fechou num mundo de fantasia, esquecida da feiura ao seu redor. E este mundo de fantasia era repleto de danças, palhaçadas, sonhos de grandeza.

Que as outras pessoas fiquem chorando e se lamentando; Josephine ia sorrir, permanecer confiante em si mesma e segura.

Quase todos que a conheceram, desde a infância até o final da Vida, comentaram como era sedutora essa sua característica. A sua recusa sem fazer concessões, ou ser o que esperavam dela, fazia com que todos os seus atos parecessem autênticos e naturais.

 

 

Crianças gostam de brincar, e de criar um mundinho auto-suficiente.

Absortas naquilo em que acreditam, são irremediavelmente encantadoras. Elas impregnam as suas imaginações de muita seriedade e sentimento.

Adultos naturais fazem coisa semelhante, principalmente se forem artistas: eles criam o seu próprio mundo de fantasia, e vivem nele como se fosse real. A fantasia é muito mais agradável do que realidade, e como as pessoas não têm o poder ou a coragem de criar um mundo assim, elas gostam da companhia de quem tem.

Lembre-se: o papel que lhe foi destinado na Vida não é  que você tem de aceitar.

Você pode sempre representar um papel que você mesmo cria, aquele que estiver de acordo com a sua fantasia. Aprenda a brincar com a sua imagem, jamais levando muito a sério.

A chave é infundir na sua brincadeira a convicção e os sentimentos de uma criança, fazendo com que ela pareça natural. Quanto mais você parecer absorto no seu próprio mundo cheio de alegria, mais sedutor será.

Não faça as coisas pela metade: torne a fantasia que você habita a mais radical e exótica possível, e você atrairá as atenções como um ímã.

 

 

RISCOS

 

Uma qualidade infantil pode ser encantadora, mas também irritante: o inocente não tem experiência do mundo, e a sua doçura pode se revelar enjoativa.

Como a total e plena infantilidade pode rapidamente irritar, os melhores sedutores natos são aqueles que, como Josephine Baker, combinam a experiência e sabedoria adulta com uma atitude infantil. É esta mistura que fascina tanto.

A sociedade, vale lembrar, não suporta um excesso de gente natural.

Com uma multidão de Coras Pearl e Charlies Chaplin, o encanto deles estaria logo  gastado. De qualquer modo, em geral só os artistas, ou pessoas com muito tempo disponível, é que têm condições para exagerar.

E se você for descontroladamente infantil e não conseguir desligar essa sua característica, corre o risco de parecer patético, não conquistar simpatia mas, sim, pena e desprezo – e não é preciso lembrar o quanto estes sentimentos não anti-sedutores.

 

Similarmente, os traços sedutores do Natural funcionam melhor em alguém ainda jovem o suficiente para que eles pareçam naturais. Para uma pessoa mais velha, isso é mais difícil de conseguir.

Cora Pearl não parecia tão encantadora aos cinquenta anos de idade, quando ainda usava seus vestidos cor-de-rosa cheios de babados.

O Duque de Buckingham – outro notório exemplo de um tipo sedutor Natural – que seduzia todo o mundo na corte inglesa na década de 1620 (inclusive o próprio rei Jaime I, que era homossexual), era maravilhosamente infantil nos modos e na aparência, mas com a idade essa característica se tornou tão antipática e detestável, e lhe conquistou tantos inimigos, que ele acabou assassinado.

Quando você estiver mais velho, portanto, suas qualidades naturais devem sugerir mais o espírito aberto de uma criança, e menos uma inocência que não convence mais ninguém.

 

Saiba mais sobre os outros Tipos Sedutores através dos endereços abaixo:

[Arte da Sedução] Tipo 1 – Sereia

[Arte da Sedução] Tipo 2 – Libertino

[Arte da Sedução] Tipo 3 – Amante Ideal

[Arte da Sedução] Tipo 4 – Dândi

[Arte da Sedução] Tipo 6 – Coquete

 


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